|
|
|
![]() |
|
|
|
|
Emilio Hoffmann Gomes Neto, 30 anos, formou-se em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Paraná. Nascido na capital daquele estado, Curitiba, trabalhou em empresas como a Siemens e a NewmarEnergia, esta especializada em geração de energia distribuída.
Em 2003, criou a Brasil H2 Fuel cell Energy, empresa especializada na divulgação do conhecimento relacionado ao hidrogênio como combustível e da tecnologia de células a combustível. Em 2004, criou o Portal Célula a Combustível, que logo se tornou referência para o assunto no Brasil e em Portugal.
Atualmente, dedica-se ao trato da geração de energia elétrica com total ênfase à Célula a Combustível (www.celulaacombustivel.com.br) e às tecnologias do hidrogênio. Além disso, o pesquisador está acompanhando e opinando, junto ao Ministério de Minas e Energia, sobre o Roteiro Para a Política Brasileira do Hidrogênio e ministra cursos práticos com a tecnologia e palestras abordando Os Veículos do Futuro, A Sociedade e As Empresas da Nova Era da Energia Baseada no Hidrogênio, Energias Renováveis e Células a Combustível.
Autor do livro Hidrogênio, Evoluir Sem Poluir: a era do hidrogênio, das energias renováveis e das células a combustível (240 pág.), ele faz no trabalho uma apaixonante abordagem sobre o futuro que se aproxima, prometendo profundas mudanças na humanidade e anunciando o fim da Era do Petróleo e o início da Era do Hidrogênio e das Fontes Renováveis de Energia.
“Serão inúmeras as mudanças que irão influenciar o dia-a-dia das pessoas, até mesmo no melhor relacionamento entre os países: carros sem emissão de gases poluentes ou poluição sonora, geração de energia em casa, fim da disputa pelo petróleo e as conseqüentes guerras e melhora do meio-ambiente”, antecipa o cientista, entre uma infinidade de novidades surpreendentes.
No livro, exposto na Bienal no Rio de Janeiro, a amplitude da abordagem permite suprir de informações e novidades tanto o expert quanto o curioso, usando uma linguagem simples, porém com profundidade, além de procurar motivar os estudantes a fazer parte da escrita desta nova história.
Abrindo a série de entrevistas que serão disponibilizadas a cada domingo, Emilio Hoffmann Gomes Neto conversou com ambientebrasil.
ambientebrasil - Como o senhor se envolveu com pesquisa de célula combustível?
Emilio Hoffmann Gomes Neto - Há cinco ou seis anos, eu trabalhei em uma empresa especializada em geração de energia distribuída, próximo ao local de consumo. E entre as empresas que ela representava aqui no Brasil, dessa tecnologia existia uma empresa canadense que oferecia termogeradores e também célula a combustível. Só que, nessa época, o presidente da empresa em que trabalhava, NewmarEnergia, disse que a célula combustível seria para daqui a 10 anos e eu me interessei, para saber o que era essa tecnologia, de que pouco se falava aqui no Brasil. E que até mundialmente ainda estava engatinhando.
ambientebrasil - De que maneira os estudos avançaram?
Emilio - Nos últimos cinco, seis anos em que cresceu essa tecnologia, eu registrei na internet o domínio célula a combustível para criar um portal sobre o assunto. Em 2003, comecei a escrever uns artigos visando a criação do portal. Foi um ano só escrevendo para esse portal que ainda não existia, criando uma forma. Até que, no inicio de 2004, foi criado o portal, o que causou um grande impacto aqui no Brasil, na comunidade envolvida no desenvolvimento da célula a combustível. Realmente, o pessoal elogiou bastante. Serviu pra divulgar o trabalho deles e também para que estudantes tivessem conhecimento do que era a célula combustível e do que estava sendo feito. Viabilizou também que pesquisadores pudessem se atualizar com algumas notícias. A partir daí o portal se tornou uma referência no Brasil e em Portugal. E, a cada dia, há mais estudantes procurando informações.
ambientebrasil - Como surgiu a proposta do livro?
Emilio - No final de 2004, resolvi escrever o livro devido à demanda. Os estudantes queriam muito mais, e esse livro tinha que ser bem didático para que não só estudantes do ensino médio e superior, pesquisadores e leigos em geral pudessem entender, mas como uma cultura geral. Então, eu tive que modificar toda a linguagem do portal e a estrutura no livro, adaptando-as, não só focando na célula a combustível, no hidrogênio, mas preparar a leitura até chegar no momento de se falar de hidrogênio e de célula a combustível.
ambientebrasil - Qual foi sua estratégia para isso?
Emilio - Eu tentei dar uma visão através de uma historia fictícia, passada em 2035, que é baseada em tecnologias que já existem hoje, mas não em uma sociedade. E apontei algumas tendências. Tentei colocar a história da energia, para entendermos a evolução humana a partir da energia e o impacto causado no meio ambiente, além de uma fase de conhecimentos gerais - o que é eletrólise da água, o que é elétron, próton, energia elétrica, energias renováveis e, então, chegamos na era do hidrogênio, das energias renováveis, das células a combustível.
ambientebrasil - O que o prevê para o futuro nesse campo do conhecimento?
Emilio - Eu acredito que as três unidas vão estabelecer realmente uma nova era da energia. Porque o hidrogênio só se justifica se for produzido a partir de fontes renováveis de energia, e terá que ser utilizado com uma tecnologia muito particular, que é a célula combustível, mas que tem aplicações diversas, em equipamentos portáteis, como celulares, no setor de transportes, automóveis, ônibus, aviões.
ambientebrasil - Sua história fictícia se passa em 2035. O senhor acredita que, nesse ano, a realidade será mesmo como a retrata? Porque a célula combustível é conhecida há 150 anos... Os estudos atuais estão avançados?
Emilio - De uma maneira geral em todo o mundo, principalmente nos EUA, Canadá, Europa e Japão. A Austrália, em menor escala, está bem avançada também. América Latina, Brasil, estão devagar. Principalmente no setor automotivo, o que vai alavancar o hidrogênio, a infra-estrutura da célula a combustível, juntamente com o setor de portáteis, o que está sendo feito agora, nas empresas desses segmentos, é a fase final de testes de protótipos para realmente colocar no mercado automóveis à base de hidrogênio, atingindo a maturidade tecnológica para competir com os automóveis atuais, os automóveis convencionais, com motor a combustão. Agora, o que vai determinar é o fator escala, para diminuir o custo. O preço hoje é alto porque são protótipos, utilizados apenas como leasing para empresas públicas e de entrega, em parceria com empresas automobilistas. Elas absorvem o dia-a-dia do comportamento desses veículos. No final do ano, a Honda vai abrir o leasing para pessoas físicas. Nós poderemos então, adquirir um carro com célula combustível, hidrogênio, e as informações do dia-a-dia do automóvel serão fornecidos a Honda para aperfeiçoamento do automóvel.
ambientebrasil - No Brasil, quais as principais fontes de hidrogênio?
Emilio - Tem a água, o etanol, o biodiesel, o biogás a partir da biomassa do esgoto, do lixo orgânico, nos aterros sanitários; o gás natural. Dessas fontes de energia, o gás natural é apontado como a fase intermediária pra uma infra-estrutura baseada no hidrogênio. E o gás natural nacional vai acabar em 18 a 20 anos, de acordo com a demanda atual do gás e nossas reservas. A mesma coisa com o petróleo nacional: terá acabado daqui a 18 ou 20 anos. Então, o Brasil precisa tomar alguma atitude.
ambientebrasil - De que maneiras?
Emilio - Já estamos tomando agora com o biodiesel, só que utilizando motores a combustão, principalmente em caminhões e ônibus. E o Brasil apresenta, de todos os países, a maior oportunidade para uma infra-estrutura baseada no hidrogênio e em energias renováveis. Mas estamos atrasados nessa corrida. Uma corrida do século, porque os países entendem que, adotando a tecnologia no início de seu desenvolvimento, eles vão poder deter uma base forte de conhecimento e, assim, crescer, estabelecendo padrões para a indústria, liderar o fornecimento de componentes, sobre sistema de serviços e atrair tecnologias complementares, o capital e experiências. Então, se o Brasil continuar nessa lentidão, não tiver uma definição, vai perder muitas oportunidades e até pagar royalties às patentes que já estão sendo feitas, focadas em células a combustível e na tecnologia do hidrogênio. Não podemos perder a oportunidade.
ambientebrasil - Mas o que está sendo feito para ficar em melhor posição nessa corrida?
Emilio - Tomamos uma ação agora, só que ainda está no papel. Aproximadamente 80 especialistas do Brasil estão elaborando o roteiro para política brasileira do hidrogênio junto ao ministério de Minas e Energia. Está em fase final. Quando terminarmos de elaborar, teremos uma definição de que rumo o Brasil irá tomar, pois o roteiro visa identificar onde estão as oportunidades e deficiências do país, quais são as instituições hoje em que o Brasil pode investir, onde precisa equipar laboratórios etc. Isso tem que ser feito não só nas universidades e empresas de pesquisa, mas também a partir do ensino médio. Isto já está sendo feito na Alemanha, no Canadá, nos Estados Unidos. Atrair o interesse dos estudantes em termos de educação, para que eles se interessem em fazer algum curso vinculado ao hidrogênio e a célula a combustível.
ambientebrasil - Esses estudos envolvem que áreas?
Emilio - Isso envolve biologia, engenharia ambiental, engenharia florestal, engenharia química, elétrica, economia - pois um estudo econômico é muito importante e ainda não foi feito no Brasil. Se a gente investir no hidrogênio, nós teremos um grande prejuízo ou uma grande oportunidade de receita para o país, de desenvolvimento tecnológico.
ambientebrasil - São feitos cursos no ensino médio e o senhor programa levar seu livro às escolas. Como é a receptividade dos estudantes?
Emilio - A primeira palestra que eu fiz foi na UFPR. A Segunda, no Cefet de Florianópolis. Chegando lá, descobri que quem solicitou a palestra foram estudantes de 14 anos de idade. E também recebo e-mails. Uma menina de 12 anos criou um site sobre hidrogênio e célula a combustível e me enviou. O interesse é grande. Temos que motivar e dar ferramentas básicas para fazerem experiências. Em um curso que eu dei, havia um estudante que quer fazer biologia, pesquisadores renomados, aposentados, professores, uma mistura que é justamente o que eu queria: pessoas de diferentes idades e profissões e interesses diversos, mas todos interessados na questão ambiental e no que é hidrogênio.
ambientebrasil - No seu livro você diz que o hidrogênio é o elemento abundante do mundo. A célula a combustível deixa algum resíduo ou é um elemento totalmente limpo?
Emilio - Existem basicamente seis ou sete tecnologias. Algumas utilizam o gás natural; outras utilizam o hidrogênio puro; outras, o etanol, que ainda está em pesquisa, ou o metanol. A maior parte delas, principalmente das células a combustível, e no setor automotivo, vai utilizar o hidrogênio puro. No centro urbano, nós teremos benefícios pelo fato que os veículos vão emitir somente vapor d'água, o que resulta do processo eletroquímico que ocorre na célula a combustível. Além de produzir eletricidade, é só vapor d'água. Então, não teremos emissão de gás carbono e outros compostos na atmosfera, nem de óleo que, vazando, pode contaminar o lençol freático.
ambientebrasil - E quanto ao gás natural?
Emilio - Existe outra célula a combustível que utiliza gás natural. Para extrair o hidrogênio do gás natural, obviamente o gás natural tem carbono e mais o oxigênio do ar, liberam o dióxido de carbono. Só que, pela eficiência da célula combustível, essa emissão é menor do que se fosse queimado numa turbina de gás natural.
O etanol emite realmente dióxido de carbono, só que é um combustível renovável, então, tem essa vantagem. O metanol, se for obtido da madeira, é renovável. Se for obtido do petróleo, é um combustível não renovável fóssil. E no caso da água, se analisar só os veículos, eles praticamente não poluem. Mas nós temos que ver globalmente, desde a produção de hidrogênio até sua utilização no veículo, por exemplo.
ambientebrasil - Como assim?
Emilio - Se o hidrogênio for obtido a partir da eletricidade do Brasil, ele pode ser considerado renovável e limpo. Obtido através da hidrelétrica. Já em uma matriz elétrica, como na Europa, que é baseada em termoelétricas, gás natural e carvão, produzir hidrogênio a partir da eletricidade polui muito mais do que se o hidrogênio fosse produzido diretamente através do gás natural ou do carvão gaseificado. Então, a produção do hidrogênio através do carvão gaseificado polui menos do que a queima do carvão pra produzir energia. Essa é uma opção bem utilizada nos EUA, porque eles não vão deixar de utilizar o carvão deles, que há mais de 300 anos é utilizado para manter o país, mas vão utilizar através da gaseificação, que produz o gás que tem hidrogênio, extrai o hidrogênio desse gás, quase um metano, e utiliza-o na célula a combustível. Existem várias tecnologias de células, mas, na forma geral, a célula combustível utiliza mesmo o hidrogênio, que no fim do processo só resulta em vapor d'água.
ambientebrasil - Pode-se classificá-la então como a alternativa de menos impacto ao meio ambiente que existe?
Emilio - Sim, é bem interessante para centros urbanos. Diminui a poluição drasticamente.
ambientebrasil - Essas novas tecnologias confrontam e ameaçam diretamente o setor petrolífero que, a princípio, não deve ter o menor interesse na expansão delas. O poderio econômico que representam não pode criar obstáculos a esse avanço?
Emilio - Eu não acredito, pois essas empresas sabem que o petróleo vai acabar. Elas têm que ter outro produto pra vender depois. Então, as empresas estão pesquisando. As empresas de energia vão ter um novo mercado, hoje elas vendem eletricidade e, a partir de suas hidrelétricas, elas vão produzir hidrogênio para o setor de transporte. Nós poderemos ter postos de energia da Copel, da Cemig, concorrendo com postos de hidrogênio da Petrobrás, da Texaco. E acredito até em fusões entre elas para sobreviverem. E não só entre elas. Por exemplo, a Copel hoje tem parte da Compagás, assim como a Petrobrás, porque eles enxergam gás natural como fonte de energia, até mesmo para produzir hidrogênio.
ambientebrasil - E quanto às fábricas de automóveis?
Emilio - Elas vão bater de frente com essas empresas, principalmente empresas que desenvolvem tecnologia de geração de energia, porque a mesma tecnologia que vai mover os veículos do futuro serve para gerar energia nas indústrias, nos hospitais e nas residências. A Honda, a GM, a Toyota estão também desenvolvendo a célula a combustível para a geração de energia em uma residência, indústria. Poderemos ter até fusões entre empresas automobilísticas e de energia. Todas tentando sobreviver no mercado. Se o custo do painel fotovoltaico - uma fonte maravilhosa de geração de energia, principalmente eletricidade - fosse baixo, ninguém mais compraria das empresas de energia elétrica, por exemplo. Se a tendência acontecer, e o custo do painel fotovoltaico diminuir e da célula a combustível também, será bem crítico para essas empresas, porque poderíamos produzir hidrogênio em casa, através da energia solar.
ambientebrasil - Isso tudo está quão próximo da gente?
Emilio - A Honda está desenvolvendo a célula a combustível para os seus veículos, para geração de energia em residências e também energia solar. Ela está desenvolvendo o que chama de Estação Residencial de Energia, que fornece energia para a casa e combustível para o carro. A partir do gás natural e da energia solar, muita coisa pode acontecer. Os interesses econômicos entre as empresas realmente vão bater de frente e vai ter que ocorrer um ajuste.
Fonte: www.ambientebrasil.com.br/noticias/index.php3