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A indústria alimentícia e a indústria nuclear, com o apoio do governo, aproveitaram-se de surtos de alimentos contaminados por Escherichia coli para convencer o público a aceitar a irradiação dos alimentos. As Comissões de Orçamento do Congresso e do Senado dos EUA propuseram substituir o termo “irradiado” por “pasteurização eletrônica”. Isso é um absurdo, uma vez que a dosagem de irradiação estabelecida pelo FDA (órgão do governo americano responsável pelo controle de medicamentos e alimentos) de 450.000 rads para a carne equivale a quase 150 milhões de raios-X do tórax —além de contornar o direito fundamental dos consumidores de saber.
Análises realizadas pelo exército dos Estados Unidos em 1977 revelaram diferenças importantes nas substâncias químicas formadas durante a irradiação e durante o cozimento da carne. Os níveis de benzeno, uma substância que tem grande potencial de causar câncer, eram 10 vezes mais altos na carne irradiada do que na carne cozida. Foram encontradas, também, altas concentrações de produtos químicos radiolíticos considerados como carcinógenos.
O FDA tomou uns poucos estudos, selecionados dentre mais de 400 na década de 70 e no início da de 80, como base para suas alegações de segurança. No entanto, a Dra. Marcia van Gemert, presidente da força-tarefa da FDA sobre alimentos irradiados, que revisou esses estudos, insiste que nenhum deles seguiu adequadamente os padrões de 1982, e muito menos os da década de 90. Análises detalhadas desses estudos mostraram que todos continham graves falhas.
Esses resultados não são de se estranhar, pois vários estudos independentes realizados antes de 1986 mostraram claramente danos genéticos em decorrência de alimentos irradiados e estudos realizados na década de 70 pelo Instituto Nacional de Nutrição da Índia mostraram que alimentando crianças, macacos, ratos e camundongos subnutridos com trigo irradiado ocorria grave dano cromossômico nas células sangüíneas e da medula óssea, assim como danos mutacionais em roedores. Estudos posteriores também revelaram a presença de elementos químicos radiolíticos mutagênicos e carcinógenos em alimentos irradiados.
O Serviço de Pesquisas do USDA, Ministério da Agricultura dos Estados Unidos, admitiu que a irradiação dos alimentos causa importantes perdas de micronutrientes — principalmente das vitaminas A, C, E e do complexo B — perdas estas que são aumentadas pelo cozimento, resultando em alimentos sem valor nutritivo.
A irradiação também tem sido usada para higienizar alimentos não apropriados para consumo humano — tais como peixe estragado — matando as bactérias que provocam mau cheiro.
As usinas de irradiação que usam isótopos peletizados representam um risco de acidentes nucleares para todas as comunidades nos EUA, provenientes de mais de 1200 instalações nucleares planejadas para o enorme mercado de irradiação em potencial. Ao contrário das usinas nucleares, essas instalações são relativamente pequenas, sujeitas a pouca regulamentação, provavelmente pouco seguras. Elas necessitam de suprimentos regulares de cobalto (60Co) ou de césio (137Cs) –— cujo transporte através do país representa um grande risco. As usinas que usam aceleradores lineares (feixes eletrônicos) para irradiar alimentos só servem para irradiar alimentos com menos de 7,5 cm de espessura. Essas usinas apresentam sérios riscos para os funcionários.
O histórico da indústria da irradiação é suspeito. Os arquivos da Comissão de Regulamentação Nuclear (NRC) estão abarrotados de casos não comunicados de derramamentos radioativos, exposição excessiva dos operários e vazamentos de radiação para fora das instalações.
A indústria de irradiação e a agroindústria têm se concentrado na limpeza lucrativa de alimentos contaminados, em vez de dedicar-se à prevenção da contaminação na origem. No entanto, as intoxicações provocadas por E.coli poderiam ser evitadas por medidas de higiene, que já deveriam ter sido tomadas há muito tempo. Um saneamento mais eficaz também evitaria a contaminação do sistema de abastecimento de água.
O saneamento nos abatedouros, antes e após o abate, poderia reduzir bastante o índice de contaminação das carcaças dos animais. Os exames das carcaças para verificar a contaminação por E. coli e Salmonella são baratos, práticos e rápidos. O custo de produzir carne saudável é mínimo em comparação com os altos custos da irradiação, incluindo possíveis acidentes nucleares, proibição pelo mercado internacional de importação dos alimentos americanos irradiados, assim como um grande risco para a indústria de turismo dos Estados Unidos.
Em vez de sanear os rótulos para satisfazer interesses especiais, o Congresso deveria concentrar-se no saneamento — e não na irradiação — dos nossos alimentos.
Dr. Samuel S. Epstein e Wenonah Hauter
Fonte: What Doctors Don't Tell You, Vol 13, n.º 6, setembro 2002