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Os poderes curativos das plantas e seus efeitos na prevenção de doenças são a base de um conhecimento empírico que, por décadas, se expressou através dos “cházinhos da vovó”. Ao longo dos últimos anos, porém, muitos desses benefícios passaram pelo crivo da Ciência, que atestou os potenciais terapêuticos de algumas ervas, sementes e cascas de vegetais.
Um exemplo desse processo transcorreu no mês passado, na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto. Lá, uma pesquisa de doutorado, de autoria da professora Denise da Silva Leitão, comprovou que o alecrim-do-campo é capaz de inibir alguns processos fisiológicos da bactéria Streptococcus mutans que levam à formação da cárie dental.
O alecrim-do-campo (Baccharis dracunculifolia, D.C.) é uma planta nativa do Brasil e espécie vegetal endêmica do cerrado, ocorrendo nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e no norte do Paraná. Tornou-se foco dos estudos da cientista porque é a principal matéria-prima vegetal da própolis verde. A própolis é uma resina produzida por abelhas e pode variar em composição química e propriedades terapêuticas justamente conforme a espécie vegetal que estes insetos selecionam para o seu preparo. (saiba mais no final desta matéria)
No caso da própolis verde, Denise Leitão já tinha conhecimento de que a substância é capaz de inibir processos fisiológicos da bactéria Streptococcus mutans que levam à formação da cárie dental. “ O objetivo de nosso trabalho foi investigar se extratos das folhas do alecrim-do-campo apresentavam atividade anticariogênica semelhante aos extratos de própolis verde”, explica ela. “Os resultados obtidos confirmaram esta hipótese”, completa.
Segundo ela, pouco se sabe sobre as propriedades terapêuticas da planta, sobretudo em função do rarefeito interesse que desperta sob as óticas medicinal e econômica. A comunidade científica corre o risco concreto de estar perdendo um tempo precioso. Como matéria-prima da própolis verde, o alecrim-do-campo faria jus ao topo do pódio nas prioridades desse tipo de investigação. Isto porque a própolis verde vem conquistando reconhecido – e comprovado – valor medicinal. “Ela atua na regulação do sistema imunológico, prevenindo a queda de resistência do organismo e o aparecimento de doenças, além de inibir o crescimento de tumores e reduzir os efeitos colaterais da quimioterapia do câncer”, diz a professora Denise Leitão.
Um produto exclusivamente brasileiro, a própolis verde é quase que desconhecida em território nacional. A maior parte de sua produção termina exportada para o Japão, onde a substância é comercializada, basicamente, como coadjuvante na dieta de pessoas que precisam se submeter à quimioterapia.
Se confirmada a extensão de seus poderes ao alecrim-do-campo, a aplicação comercial encontraria menos dificuldades do que em comparação com a resina das abelhas. A própolis verde é um produto natural complexo, que combina não só as propriedades medicinais das folhas do alecrim-do-campo, mas também componentes antimicrobianos presentes na saliva dos insetos. “A padronização de um produto farmacêutico preparado a partir de uma planta é mais fácil, segundo as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, do que um preparado a partir de própolis”, diz Denise Leitão.
Como a resina fabricada pelas abelhas está sujeita à variações sazonais, oriundas do clima e das plantas priorizadas em sua coleta, o alecrim-do-campo abre a possibilidade de redução nessas variáveis, desde que seu plantio se processe de maneira sistematizada e obedecendo a padrões.
Mas ainda é cedo para se falar sobre a elaboração de um creme de higiene bucal à base de alecrim-do-campo. Os extratos da planta foram testados apenas sobre a bactéria, em estudos in vitro. “Para se pensar em um produto farmacêutico, é muito importante que estas mesmas propriedades terapêuticas sejam confirmadas através de novos experimentos, utilizando modelos de cárie em animais de laboratório”, explica Denise Leitão, lembrando que tais estudos teriam que preceder os testes clínicos em seres humanos. “É necessário ainda suporte financeiro para o prosseguimento das pesquisas”, diz a pesquisadora, que reconhece o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp - no financiamento do projeto. “Até o momento, não houve manifestação de interesses por parte da indústria farmacêutica, mas a divulgação dos resultados pode exercer um aspecto bastante positivo neste sentido”.
A pesquisadora alerta que o efeito do alecrim-do-campo na prevenção da cárie dental está associado ao contato direto de seus componentes com bactérias que a causam e, portanto, do seu contato com os tecidos da cavidade bucal onde elas se fixam - dentes, gengiva, língua. A ingestão de extratos, infusões ou qualquer outro tipo de beberagem com o alecrim-do-campo não exerce o mesmo efeito. “Desencorajamos o consumo da planta em qualquer preparação, pelo fato de ainda carecermos de estudos toxicológicos que confirmem sua segurança para a saúde humana”.
Outra advertência é que o alecrim-do-campo não deve ser confundido com o alecrim (Rosmarinus officinalis), arbusto originário da Europa e cujas folhas são utilizadas como condimento na culinária brasileira. “Este também possui propriedades medicinais, porém bastante diferentes daquelas que relatamos para o alecrim-do-campo”, esclarece Denise Leitão.
Mônica Pinto